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segunda-feira, 16 de março de 2015

Por Trás das Grades

Raramente me interesso por livros de não-ficção. Não são a minha praia e pronto. Mas, de vez em quando, lá surge algum que me chama a atenção e tenho curiosidade de ler. Foi assim que conheci a pequena Nujood, uma menina de 10 anos que conseguiu divorciar-se. Parece mentira, mas o mundo está cheio de histórias que, para nós, são bizarras. Mas que para os seus protagonistas são, certamente, apenas mais um dia. Por vezes  surgem algumas histórias deste género nos meios de comunicação, mas quantas mais não permanecerão para sempre na privacidade de quatro paredes?

A história de Maude é mais uma entre tantas. Quando li a sinopse e aquele apontamento na capa, esperava uma história totalmente diferente da que encontrei. Um pai que tranca a filha numa cave, ou algo do género, e abusa dela sem a deixar ver a luz do dia. Não seria a primeira vez, pois não? Mas não! O pai de Maude é um predador, mas num sentido  diferente. A sua obsessão consiste em oprimir, controlar e dominar todos os que o rodeiam, tornando-se um género de guru das suas vidas.

Começamos por conhecer o pai de Maude que, aos 34 anos dirige uma empresa e conhece uma notável ascensão social. Ao cruzar-se com um mineiro, pai de uma família numerosa e com dificuldades de sustento, o Sr. Didier propõe-lhe que deixe a sua filha mais nova a seu cargo e promete encarregar-se dos seus estudos até ter idade para se casar. A única condição imposta a este acordo é que o mineiro jamais poderá voltar a vê-la. E assim, Jeannine, uma menina loira, é enviada para um externato e mais tarde para a Universidade para estudar filosofia e latim. Quando Jeannine se casou com o seu protector deu-lhe uma filha, também ela de cabelos loiros, e passou a encarregar-se pessoalmente da sua educação. O objectivo era criar um "super ser" que mais tarde seria chamado a "resgatar a humanidade". 

Quando Maude completa 3 anos, a família muda-se para uma propriedade isolada onde começa o treino projectado pelo seu pai. Este livro é revoltante. Custou-me imenso ler as atrocidades a que o Sr. Didier submeteu a sua própria filha, sem nunca lhe ter demonstrado qualquer tipo de afecto. Preparou-a para torturas, para raptos, para viver no mundo dos mortos e tudo isto (e muito mais) sem permitir qualquer tipo de emoção - coisa a que só os fracos de espírito se podiam sujeitar. Claro que com o passar dos anos, em especial com o início da adolescência, Maude conquistou pequenas vitórias que a levaram, muito lentamente, até à sua liberdade. 

Torna-se muito interessante ler o livro por ser escrito pela própria Maude e desta forma conseguimos perceber a sua maneira de encarar e de interpretar as lições que os pais lhe transmitem. Mesmo quando é empregado algum vocabulário que, dificilmente, uma criança de 4 ou 5 anos poderia perceber e que só faz com que a menina se sinta estúpida e inferior ao seu pai. Um homem culto que foi aviador e cavaleiro, que consegue mover objectos com a mente e controlar pessoas através da hipnose, que viveu imensas vidas e tem memória de todas elas. Um homem que se esconde nas sombras e segue todos os passos da filha, que conta o tempo até ao último segundo mas que, quando esse controlo poderia salvar a vida da miúda, não se apercebe de nada... Enfim... 

Sei que esta não é uma leitura para qualquer pessoa. Eu peguei-lhe com algum receio porque este tipo de livros me deixam os nervos à flor da pele. Não é um livro que se leia de ânimo leve, mas para quem goste daqueles livros sobre as mulheres árabes e outro tipo de histórias verídicas, é mais uma boa aposta. Não é mesmo a minha praia, mas termino a leitura com uma verdadeira lição de vida e, certamente, a dar mais valor àquilo que me rodeia. 

Resta-me agradecer à editora Guerra & Paz que, amavelmente, apoiou esta leitura.
Recomendo!


8 comentários:

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    1. Infelizmente, é o que dá não ter muito que fazer. Mas é melhor aproveitar enquanto posso :D

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  2. Como comentei contigo, não sei se tenho estomago para ele... Mas deve ser interessante perceber depois como a Maude se "liberta" desse monstro.

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    1. Não foi mesmo uma leitura fácil, mas é enriquecedor :)

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  3. Olá!

    Pois, é um livro forte e uma história pesada. Eu gosto bastante de livros de não-ficção, de histórias reais.
    Gostei bastante de ler este livro, embora senti-se que precisava algo leve a seguir.

    Beijinhos e boas leituras.

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    1. Olá Isaura!

      Eu costumo mesmo fugir deste tipo de livros. Tenho cá a Naziram para ler há séculos e nunca tenho coragem de lhe pegar. Mas alguns até me interessa e normalmente são os que envolvem crianças. Vai-se lá perceber... Mas pronto, acima de tudo fiquei feliz por hoje em dia a pequena Maude ter uma vida normal, apesar de tudo o que passou. Só fiquei com a dúvida em relação ao marido, que nunca é esclarecida. Será o mesmo que a libertou da prisão? Se sim, wow que principe...

      Também acabei com essa sensação mas acabei por ler o Jonas Vai Morrer e correu muito bem :)

      beijinhos e boas leituras

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  4. Ois,

    Bem parece-me um livro interessante, é bom sabermos o que se passa noutros locais do nosso mundo, nem temos a minima ideia de como muita mulher ainda é vista ;)

    Bjs e boas leituras

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    1. Olá!

      É verdade, nem imaginamos as coisas estranhas que se fazem por este mundo fora... Às vezes penso que antigamente devia ser muito pior, mas será que sim? O mundo está cada vez mais louco...

      beijinhos!

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